Por dentro


A cada dia eu fico mais estupefato com esta tua capacidade de me iluminar, de me fazer te querer a cada instante, de me absorver pro teu âmago de corpo inteiro.Aí eu fico assim, livre, dentro de uma enorme gaiola de desejo, com a portinhola escancarada me esperando sair. Então vou até ela, boto a cara pra fora, olho pros dois lados duas vezes, e de supetão a fecho e passo rápido o ferrolho, que é pra ninguém entrar, que é pra ninguém sair

À flor da pele ou a pele da flor


PELE

Beija como quem vive com sede
Morde como quem morre de fome
Abraça como quem quer renascer

Olha-me nos olhos enquanto sente
Mas corre do meu olhar insistente
Quando quero apenas fazer derreter

Percorro sua carne branca al dente
E tal qual um ser louco e indecente
Mastigo-lhe a pele até vê-la desfalecer

Um novo amor é como um transplante
Que ressuscita a alegria de ser amante
de quem alucina de tanto bem querer


(A imagem é da epiderme de uma Sempervivum Violaceum vista bem de pertinho
e o poeminha ingenuo é para uma florzinha de pele branca e dentes poderososíssimos)

Tão doce que engasga


"Um confeito na boca pra o beijo açucarado, um segredinho guardado num bilhete amassado, um recado com muito significado dizendo assim: cuide de mim com todo cuidado. Passei a ler sobre culinária, teatro e dança; passei a escrever mais rebuscado, não falar tanto palavrão e ser mais recatado. Aprendi também a ser mais paciente, se de repente te interessar, experimente; fui treinando duro pra ser menos intransigente, pra ser mais maduro. Quando você ligar, o telefone estará sempre desocupado, meu coração também, é um trato que faço contigo, ser além, ser concentrado, eu juro. Daqui eu velo pelo teu sono, e pra mim não importa com o que ou quem você tem sonhado. É tempo de estarmos sossegados, se o que vier, venha agora ou mais tarde, nunca será no tempo errado. Veja bem, estou te dando um tanto de mim, não é emprestado, não precisa ter retorno, quando faço bonitinho e do teu agrado, eu fico ainda mais contente, porque vejo você como sempre quis: pra sempre feliz. Acho que tudo anda meio comprovado, olha um pouquinho pro céu, vê só, tem uns futuros em nuvens desenhados. Acho que tem um abraço também, um dengo, um chamego, um disco na vitrola num dia achocolatado, tudo reservado e profetizado. Vou consertar o despertador, chego cedo dessa vez, nunca mais atrasado. Prometo fazer do meu teto um universo pra você ficar confortável, todo dia eu faço um bocado de pequenos mimos e os deixo na parede, colados; pra você ficar sorrindo achando tudo engraçado, reclamando a minha falta de jeito, suspirando que o meu maior defeito é ter amor exagerado. E muita gente vai querer saber como a gente chegou nisso, depois de tanta lágrima, agora tanto riso. Mas não precisamos ser mais explícitos, de tristeza nem sei mais o que é isso. Aprendi sem você a ficar mais comigo. E o que senti foi saudade dessas de machucar, mas que também me mostrou que era preciso, a gente precisava disso, vamo deixar pra lá! Prometo amor, prometo ser o teu morar no mundo, se você quiser vir comigo a qualquer lugar. Mas enquanto isso, não tem pressa, deixa passar o tempo que tiver que passar, que tiver que gastar, se for pra ser do nosso jeitinho, será. Vou daqui te olhando de longe, guardando assento, deixando pairar, depois quem sabe chegando ao ápice, aquele lugar do início que a gente sabia que iria voltar".

*A minha amada amiga Carmem dizendo tudo que eu queria muito dizer, mas que estava atravessado na minha garganta como uma bala soft quando a gente engole.

Fuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu...


Não mais que 30 míseros centímetros entre minha boca vermelha, cheia de dentes, e aquele pescoço branco, límpido, banhado de sol amarelo, emoldurado por uns cabelos negros como essa noite nua de estrelas. Seus ombros de escultura estavam bem ali, ao alcance do meu queixo limpo à navalha, agora já áspero. Seu colo quase podia ser tocado pela ponta úmida da minha língua, quase podia sentir seu gosto por baixo do pingente. Levantei meus olhos e novamente me perdi na profundidade apaixonada das suas duas gemas castanho-escuras, vivas, brilhantes, encimadas por sobrancelhas perfeitamente talhadas. As minhas próprias jóias, agora já não mais de minha propriedade, esboçaram um inevitável olhar canino, característico daqueles animaizinhos perdidos, que caíram na mudança e sentem saudades do lugar mais seguro do mundo: o calor do entre suas pernas, sob as cobertas. E isso lhe roubou um riso, que de tão comovente me fez retribuir com o meu sorriso mais bem guardado. Então, meu rosto pendeu à direita, já sem fala, como se pesasse mil toneladas, e minha mão destra avançou os míseros centímetros até o quase tocar seu rosto através da vidraça. Do seu lado era o sol te aquecendo pele, do meu era você me aquecendo por dentro, numa noite chuvosa igualzinha a esta. Todos os dias eu venho à janela, mesmo quando você não está, com um desejo, ao mesmo tempo másculo e infantil, de pegar uma pedra, colocá-la no estilingue e fazê-la em pedaços, para depois atravessá-la mesmo me ferindo nos cacos. Porque sei que aí do teu lado, você me passará merthiolate, soprará minha dor para bem longe e me dirá: shiiiiiiiiu, já passou meu amor, já passou...

Perpetuum Mobile

...entrecruzam-se independentemente de tempo/espaço, milênios tornam-se milésimos de segundo, milhas encolhem-se em centímetros, razões desencontram-se das emoções, caminhos encontram-se em círculos, eixos perdem-se nos giros, fins amarram-se aos inícios e tornam-se meios, sentidos tiram-se do sério, verdades lançam-se no ar, mentiras atiram-se ao chão, fatos justificam-se em nós, argumentos esvaem-se em si, abraços entrelaçam-se no êxtase, um beijo torna-se eterno, olhos enxergam-se infinitamente, entrecruzam-se independentemente de tempo/espaço, olhos enxergam-se infinitamente, um beijo torna-se eterno, abraços entrelaçam-se no êxtase, argumentos esvaem-se em si, fatos justificam-se em nós , verdades lançam-se no ar, sentidos tiram-se do sério, inícios e tornam-se meios, eixos perdem-se nos giros, razões desencontram-se das emoções, caminhos encontram-se em círculos, razões desencontram-se das emoções, milhas encolhem-se em centímetros, milênios tornam-se milésimos de segundo, entrecruzam-se independentemente de tempo/espaço, verdades lançam-se no ar, razões desencontram-se das emoções, eixos perdem-se nos giros, fatos justificam-se em nós, caminhos encontram-se em círculos, milênios tornam-se milésimos de segundo, argumentos esvaem-se em si, um beijo torna-se eterno, olhos enxergam-se infinitamente, um beijo torna-se eterno, eixos perdem-se nos giros, abraços entrelaçam-se no êxtase, fins amarram-se aos inícios e tornam-se meios, entrecruzam-se independentemente de tempo/espaço, milésimos de segundo se tornam milênios, centímetros encolhem-se em milhas, emoções desencontram-se das razões, círculos encontram-se em caminhos, giros perdem-se nos eixos, meios amarram-se aos fins e tornam-se começos, sérios tiram-se do sentido, ares lançam-se à verdades, chãos atiram-se ao ar, nós justificamos os fatos, esvaem-se em si os argumentos, êxtase se entrelaça no abraço, eterno torna-se o beijo, infinitamente olhos enxergam-se,...

Darshan

Como eu poderia prever, que aos 35 anos e 33 dias, que uns tais Drávidas quase esquecidos, viventes aproximadamente 4509 anos antes de mim, pudessem me explicar exatamente a realidade do meu amor por ela?

Como eu poderia imaginar que a deidade que eu vejo, na mulher do meu desejo corporificado, é a mais divina realidade de ser, estar e existir? Que o ato de amar é nada menos que enxergá-la tal como ela é de verdade?

Talvez eu nem precisasse saber do que já intuía, que seu corpo é o meu templo, os seu olhos meu oráculo, sua boca a minha fonte, suas mãos o meu guia, suas pernas meu alicerce, o seu ventre meu altar, o seu prazer meu sacerdócio e o meu gozo uma oferenda. Sempre busquei um motivo palpável para minha eterna comoção, para minha sempre espera, para toda minha calma, para este contentamento, para as lágrimas incontidas, para a vontade sem limites, para o encolhimento do ego, para a sensibilidade exacerbada, para a razão só aumentar a emoção.

Esteve tudo sempre ali não diante do meu nariz, mas bem dentro da minha alma. Desde o meu primeiro olhar, desde o seu primeiro gesto, desde o meu primeiro encanto diante da sua fala. Era só viver, viver, viver e esperar o universo todo se movimentar, com o único e exclusivo intuito de me por diante do seu divino olhar.

Então o cosmo conspirou e disfarçado de acaso, utilizou suas artimanhas: armou encontros improváveis, plantou lembranças inesquecíveis, nos lançou no meio do mundo, nos fez aprender o sofrer e o prazer. Quando tudo parecia mais que esquecido, usou seu golpe de mestre: tornou-se gente, alinhavou os opostos. E no instante sagrado da profecia se cumprir, eu vi o que sempre vi e ela viu o que nunca viu, olhei para a deusa de sempre e ela deu à luz um deus.

[Darshan = visão de um ser sagrado]
[A imagem é da união entre Shiva e Shaktí]

Transmimento de Pensação

Um “ai” aqui outro aí

Suspiros daqui reverberam
Lábios daí que me esperam

Um “ai” aí outro aqui

Digo as palavras silenciosas
Com transmissões ansiosas

Um “ai” aqui outro aí

Ondas de mais sentimento
Penetram nosso momento

Um “ai” aí outro aqui

Uma sucessão de arrepios
Eriçam poros, pêlos e fios

Um “ai” aqui outro aí

Nossos risos em sincronia
Parece uma grande ironia

Um “ai” aí outro aqui

Para 2 amantes lunáticos
Com poderes telepáticos

Um “ai” aqui outro aí

Eu deveria ter um nome de sentimento universal, um substantivo assim tão abstrato quanto o tudo de concreto que eu sinto por ti. Talvez me chamasse Sonho, se sonhar fosse suficiente para te fazer surgir agora do meu lado. Quem sabe chamassem-me Delírio, se eu fosse capaz de delirar ao ponto de não te ver em tudo que vejo. Destruição seria uma boa alcunha, se porventura eu pudesse destruir a memória de um único sorriso que tu sorristes ou me fizestes sorrir na vida. Poderiam chamar-me Desespero, se desesperar pudesse ser mais forte do que o querer te esperar. Desejo deveria ser uma opção plausível, no entanto desejar é muito pouco para definir esta força movendo-me para teu peito. Morte eu me chamaria, se me fosse permitido morrer antes de te ter completamente na minha vida. Gritariam Destino à minha porta, Destino, Destino, se eu mesmo não tivesse me pré-destinado a ser teu. Então me basta meu nome, com tua língua pronunciando-me nos dentes. Comovendo-me de um jeito tão seu, que eu não quereria ser mais ninguém que não fosse eu mesmo.

Ciranda do Pé Quebrado

Te faria uma ciranda,
Se o mar tivesse perto.
Com rimas cadenciadas
E cheiro de maresia.

Te olharia na varanda,
Se você tivesse perto.
Palavras embaralhadas
Meu peito em agonia.

Te faria uma ciranda,
Se o mar tivesse perto.
No ritmo das passadas,
Tua mão eu pegaria.

Te olharia na varanda,
Se você tivesse perto.
Faria mil palhaçadas
E teu sorriso abriria.

Te faria uma ciranda,
Se o mar tivesse perto.
E em meio às rodadas,
O teu beijo roubaria.

Te olharia na varanda,
Se você tivesse perto.
Enfeitaria as calçadas,
Só pra ver tua alegria.

Te faria uma ciranda,
Te olharia na varanda.
Se o mar tivesse perto,
Se você tivesse perto.

"Te dei meus olhos pra tomares conta"

Eu te amo

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

[Chico Buarque “ Féla da Puta Genial” de Holanda]

Roubei esta canção para ti, só para descontar as 3 estrofes que esse safado nos roubou da vida. Então, por vingança, o salafrário se mancomunou contigo com o claro intuito de me fazer desaguar. Chorei, Chorei, mas não fiquei com dó de mim não, de jeito nenhum. Como diria Willian Blake, “Excesso de choro ri e excesso de riso chora“. Assim, chorei de sorrir. Então chorei mais e mais ao ouvi-la contigo, mesmo tu estando lá do outro lado do espelho. Quis ser Alice ao invés de Alex nesse exato momento, mas acho que cachos louros e laços não combinam tanto assim comigo. Então cantei, cantei! RS e não foi cruel cantar assim, pois atrás do espelho tinha ouvidos sim. Meus olhos marejaram, mas segurei pra não perder o tom nem o juízo. Portanto e por tudo isso, essa é a parte da trilha sonora que vai tocar nos créditos, depois do happy end e do the end. Porque é justamente depois desses ends, que poderemos viver e envelhecer em paz.

[Alex “Féla da Puta Sortudo” Camilo de Melo]

Ai, ai...

Respira, expira, suspira, inspira e o peito continua descompassado. Dois pra lá, dois pra cá, te piso o pé e você nem reclama, deixo de olhar teus pés e olho teu sorriso, eu todo envergonhado. Respira, expira, suspira, inspira... Rodamos no próprio eixo até ficarmos tontos, quase caímos, soltamos gostosas gargalhadas. Suspira, inspira, respira, expira... Te trago contra meu corpo, aperto tua cintura, te rio de lado, meu coração já um pouco mais calmo. Me mordes o lóbulo da orelha e meus pelos se eriçam dos pés a cabeça. Paro a dança e a música continua, dou-te um beijo e tudo pára, tudo vira silêncio, e só se ouve respiração, expiração, suspiros e inspiração, corações batendo no mesmo ritmo descompassado e os sons barulhentos do beijo de quem não está nem aí pra nada, nada, nada.

Ação de Graças

Uma noite dessas, parecida com qualquer noite, mas nunca uma noite qualquer: você veio assim, sem mais nem menos, e cumpriu uma promessa com bem mais do que me havia prometido. Algo maior que subir o monte de joelhos, que ir ao Juazeiro de pau-de-arara e beijar os pés do Meu Padim Pade Cíço, que aparecer em Aparecida e rezar mil rosários, que ir a Machu Pichu sacrificar um coração, que ir ao Mojave tomar um porre de peiote, que ir a Fátima tentar roubar o terceiro segredo da Virgem, que fazer o Caminho de Santiago de Compostela virando bunda canastra, quer ir a Capela Sistina pichar os afrescos de Miguel Angelo, que ir a Jerusalém rir do Muro das Lamentações, que ir a Meca e prostrar-se pro lado oposto da Caaba, que se banhar nua no Ganges, que subir o Himalaia e rodar todas as rodas de oração do Tibet, do Nepal e do Butão; que passar 365 dias mais 1 sem tomar um único gole de Fanta Uva. Você mandou um ex-voto, aquelas partes de corpo depositadas no altar em retribuição a graças atendidas, e me mostrou que pra chegar ao Céu, ao Paraíso e ao Nirvana, tudo ao mesmo tempo agora, basta subir devagar a ladeira íngrime que vai de teu cóccix até a nuca.

Sonho Lúcido

Sempre parece um belo sonho, daqueles que sempre acabam antes do beijo, o que nos faz apertar os olhos, tentando recomeçá-lo sempre de onde parou. Algo surreal o suficiente pra nos deixar acordados por dias. Segundo dizem, a Terra de Morpheus não está sujeita às regras do espaço/tempo e essas coisas chatíssimas, que desmancham nossos melhores sorrisos. Li muito sobre projeção astral, sempre tive medo de tentar, de não querer mais voltar e ficar voando por aí sem os limites da tridimensionalidade. Mas medo passa, né? Um medo é só um medo e só, né não? E depois, se eu desandar, ainda tem Freud, Jung e tu pra me fazer acordar.

Teorema

Houve um tal Milgram que, para provar a pequenez do mundo, lançou a teoria dos 6 graus de separação. Para ele, cada ser humano sobre a terra só estaria separado de um outro ser humano por outros seis seres humanos. Defendo piamente sua tese, não para estar próximo de Sócrates, Einstein, Guevara, Pessoa, Pasoline ou Dali, mas para sentir-me um pouco mais perto do sorriso mais perfeito que a evolução das espécies foi capaz de produzir.

do que se trata

Experiências inesperadas, inexperiências declaradas, declarações inspiradas, inspirações arrancadas sob ternura, eternos recomeços, meios sem fim e muita vontade de seguir em frente.